terça-feira, 24 de junho de 2008

Correio Braziliense

Bloco de emergentes vai sair do papel
Pedro Paulo Rezende
O primeiro encontro formal dos Bric — Brasil, Rússia, Índia e China — será em novembro, no Rio de Janeiro, e reunirá os ministros que cuidam da economia dos quatro países. A data, segundo fontes do Itamaraty, ainda depende de uma confirmação do ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega. A idéia é empreender ações conjuntas nos fóruns mundiais, dentro do que ficou acertado entre os ministros das Relações Exteriores na cidade russa de Ecaterimburgo, em 16 de maio, na reunião que formalizou a criação do bloco.“Pretendemos atuar de maneira mais incisiva e integrada nas instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional”, definiu uma fonte do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. “A idéia é criar um sistema mais democrático e transparente e menos exclusivo, de maneira a favorecer o crescimento sustentável global. O modelo atual privilegia as nações mais ricas.”A atuação não será limitada à esfera econômica. Os quatro países pretendem agir de forma concertada em termos estratégicos para quebrar a atual ordem unipolar, controlada pelos Estados Unidos. “Além de uma reunião de ministros das Relações Exteriores paralela à Assembléia Geral das Nações Unidas, realizaremos outra na Índia no próximo ano”, disse um diplomata brasileiro. “É importante ressaltar que os Bric têm enormes potencialidades. Reúnem dois grandes produtores de energia, Brasil e Rússia, e dois grandes consumidores, China e Índia.”Há outros pontos importantes, segundo o professor Severino Bezerra Cabral, da Escola Superior de Guerra. São países com grande potencial Militar e forte liderança regional, três deles com armas atômicas e mísseis balísticos (Rússia, China e Índia). Nesse sentido, o governo brasileiro trabalha com tratados bilaterais entre seus companheiros de bloco.Dois acordos já estão prontos e um encontra-se em fase final de redação. “Serão firmados com a Federação Russa”, revelou um diplomata. “O primeiro é sobre cooperação tecnológica-Militar. O segundo, também negociado, rege o tratamento de informações sigilosas. O último é bem mais complicado, porque trata de propriedade intelectual, que é vista na Rússia de maneira muito peculiar, mas estamos avançando no tema.”Além desses acordos, um memorando de entendimento foi assinado recentemente pelo ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, e pelo secretário do Conselho de Segurança da Federação Russa, Valentin Alekseevitch. O acordo-quadro lança uma ampla cooperação entre os dois países, inclusive em tecnologias de ponta, como um caça furtivo de 5ª geração, e abre mecanismos de troca de informações sensíveis entre os governos.Os Bric nasceram de uma maneira insólita. A idéia de um bloco reunindo os quatro países surgiu de um tecnocrata do setor privado, Jim O’Neill, diretor de pesquisas econômicas do Banco Goldman Sachs, autor da tese Dreaming with BRICs: the path to 2050 (Sonhando com os Bric: o caminho para 2050). Os números são expressivos: os Bric reúne mais de 30% da população do planeta e um PIB semelhante a 40% do reunido pelo G-7, grupo dos sete países mais industrializados (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido). Segundo as projeções de O’Neill, os Bric ultrapassariam o G-7 em 2020.
Folha de São Paulo

COLUNA MARINA SILVA
O mundo pós-petróleo
Marina Silva
A MUDANÇA de patamar no preço, combinada com a descoberta de novas reservas no Brasil, fez a discussão sobre o uso dos recursos gerados pelo petróleo dar um salto, como mostrou a Folha ontem. Se a idéia é usar parte deles para financiar políticas públicas, estamos no rumo certo, mas, em se tratando da riqueza vinda do combustível tido como símbolo do aquecimento global, é preciso colocar em questão a lógica do seu uso. Em primeiro lugar, se não podemos ainda viver sem petróleo, temos que acelerar a saída dessa dependência, com a expansão das energias limpas. Contudo, a grande pergunta é: como utilizar os lucros do petróleo para ajudar a erguer o mundo pós-petróleo? A resposta transcende a matriz energética e remete à matriz inteira desse futuro. É um exercício de juntar na mesma equação crescimento e qualidade de vida, PIB e justiça social, produção e proteção ambiental. Poucos discordariam de usar a montanha de dinheiro do petróleo para tratar educação, ciência e tecnologia, saúde, meio ambiente da forma merecida e inadiável. Mas seria muito ruim se os recursos fossem fragmentados por pressões circunstanciais ou para a criação de fundos nominais que acabam contingenciados. Ou seja, a questão não é a partilha, mas a qualidade e o sentido da partilha. Na área do meio ambiente, o debate vem de algum tempo. A lei prevê 10% sobre a receita bruta da produção, cerca de 1 bilhão de reais/ano, para pesquisa sobre fragilidades ambientais das áreas de extração e recuperação de danos causados por acidentes e vazamentos de óleo. Mas isso não funciona bem; apenas pequena parte desse recurso fica de fato disponível. No debate do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, a sugestão do MMA foi alocá-lo em um Fundo Sobre Mudanças do Clima, com 30% para contenção de vazamentos e acidentes e 70% para pesquisa e ações de mitigação e adaptação aos impactos do aquecimento global e redução na emissão de gases. A criação desse fundo consta do projeto de lei da Política Nacional de Mudança do Clima, no Congresso desde o último dia 5. Um fundo de maior envergadura, como se depreende da matéria da Folha, será muito bem-vindo, sobretudo se unir as pontas de áreas essenciais para o desenvolvimento sustentável e para planejar o futuro. É justo pensar nisso quando o dinheiro começa a jorrar em maior volume. Não teria cabimento usá-lo apenas para fazer caixa, abrir balcão de demandas ou gerar mais dinheiro, que é bom, todo mundo precisa, mas não deveria ser o principal objetivo de vida de nenhum indivíduo e de nenhuma nação.
Folha de São Paulo

Sarkozy visita Líbano e pede que facções se reconciliem
Francês é o 1º líder ocidental a ir a Beirute após eleição
O presidente da França, Nicolas Sarkozy, conclamou ontem os líderes das facções libanesas a se reconciliarem e, por meio do diálogo, construírem a paz. Sarkozy, à frente de uma grande delegação, visitou ontem Beirute por cinco horas, tornando-se o primeiro líder ocidental a visitar o país desde a eleição do presidente Michel Suleiman no mês passado.A crise política libanesa refluiu um pouco após a celebração do acordo de Doha, mediado pelo Qatar, que pôs fim ao pior ciclo de violência sectária desde a guerra civil (1975-1990) e permitiu a eleição indireta do general Suleiman, que é cristão."O acordo de Doha melhorou a situação e levou à reconciliação nacional. O presidente Suleiman tem a responsabilidade de fazer com que essa reconciliação tenha êxito", disse Sarkozy no aeroporto de Beirute.Sarkozy encontrou-se com Suleiman antes de um almoço servido no palácio presidencial ao qual compareceram os líderes das principais facções, incluindo o chefe do Hizbollah, misto de partido e milícia extremista xiita apoiada pela Síria e pelo Irã. "A parte dolorosa da crise já passou", disse Suleiman. "O acordo de Doha restabeleceu a estabilidade política no Líbano, o que nos encoraja a reavivar o papel das instituições constitucionais."Sarkozy estava acompanhado do premiê, François Fillon, ministros e líderes dos principais partidos políticos franceses. Ele disse que a delegação "excepcional" refletia os fortes vínculos entre os dois países.O ministro da Defesa da França, Herve Morin, visitou os 1.600 soldados franceses que integram as forças de paz da ONU no sul do Líbano.O Líbano tornou-se independente da França em 1943, mas Paris mantém fortes ligações com o país, em especial com a comunidade cristã.
Jornal de Brasília

COLUNA GILBERTO AMARAL
Dois quatro estrelas
De primeira: já está marcada para os dias 1º, 2 e 3 de julho, a reunião do Alto Comando do Exército Brasileiro. Presidida pelo general Enzo Martins Peri e os seus colegas quatro estrelas, estarão reunidos para as novas promoções.

Grande expectativa
São oito vagas: duas quatro estrelas, duas divisão e quatro brigada. Para general de Exército, os três primeiros da lista são: Rui Moreira da Silva, Ítalo Avena e Luis Carlos Dantas.
O Estado de São Paulo

OPINIÃO
O porto de santos e as cargas especiais
Helder Malaguera*
Em maio do ano passado o governo criou uma Secretaria Especial de Portos (SEP), com status de Ministério, para viabilizar projetos e obras para a infra-estrutura portuária, que ameaçava entrar em colapso. O ministro Pedro Brito fez apresentações pelo País, visitou portos, ouviu autoridades portuárias e empresários e divulgou o programa e metas da nova pasta.Hoje, pouco mais de um ano depois, o saldo é positivo - nos últimos meses surgiram projetos de novos portos e terminais marítimos por todo o Brasil e portos importantes, como o de Santos, responsável por 27% de todo o movimento de cargas do País, receberam atenção especial e começam a sair do processo de paralisia em que se encontravam, empurrados por verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e por projetos privados.As obras da avenida perimetral, principal entrave no acesso ao porto, começam a sair do papel, a dragagem de manutenção do canal de acesso está sendo realizada e em breve deve começar a dragagem de aprofundamento, que permitirá a Santos receber navios maiores que hoje não conseguem chegar aos terminais. Para atender à demanda futura, o Porto de Santos conseguiu apoio da SEP e foi autorizado o estudo de viabilidade para implantação do projeto Barnabé-Bagres, que deve mais que duplicar a capacidade do porto. Ainda em Santos, alguns novos projetos entraram em obras, como o terminal da Embraport, o projeto da Brasil Terminais, os terminais de Granéis Líquidos e o Corredor de Conceiçãozinha, que devem contabilizar em torno de 20 novos berços para o porto da baixada, o que representa um aumento de cerca de 1/3 na capacidade atual.Santos vai deixar de ser mote do apagão portuário e vai continuar mantendo sua posição de principal ponto de entrada e saída de mercadorias do País. Contudo, como todo o processo de crescimento ocorrido nos últimos anos nesse setor, há um excessivo destaque nos novos projetos aos terminais que movimentam contêineres. As Companhias Docas esquecem os volumes consideráveis de cargas não-conteinerizáveis, que incluem máquinas, equipamentos, automóveis, madeiras e cargas especiais ou superdimensionadas, como pás eólicas, geradores e usinas desmontadas. São cargas que viajam soltas, nos navios especializados da categoria ro-ro, que possuem pranchas rolantes especiais para esse tipo de embarque. Nos últimos cinco anos, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, essas cargas foram responsáveis por 23,5% das exportações brasileiras e por cerca de 23,2% das importações. Isso mostra a importância desse tipo de navio, pois esse tipo de carga de alto valor agregado (bens de capital) aumenta a capacidade produtiva das empresas e está relacionado diretamente à renovação do parque industrial.Até o ano passado, Santos mantinha dois berços para atracação de navios ro-ro, um terminal especializado em veículos, implantado para atender às exportações do Fox pela Volkswagen em 2006, e um terminal público na área denominada Saboó, que fica, no entanto, entre dois terminais de contêineres e tem problemas para receber navios maiores. Para complicar mais ainda, em junho de 2006 a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) editou resolução de atracação retirando a prioridade dos navios ro-ro nesse local. As empresas atingidas entraram com ação judicial e, em dezembro do ano passado, a Justiça decidiu a favor - somente agora em junho, no entanto, a Codesp editou resolução estabelecendo novas normas para a atracação dos navios ro-ro. A decisão, contudo, é um paliativo, e ainda dá prioridade para atracação de navios de suco a granel, seguida pela de ro-ro.São Paulo é o maior produtor de automóveis (54,1%) e possui as maiores plantas industriais do País, no entanto, só tem um berço dedicado à exportação de veículos e um terminal com uso restrito para o embarque e desembarque de cargas superdimensionadas. Calcula-se que os embarques e desembarques dessas mercadorias deverão aumentar em torno de 65% neste ano - minimizando a queda nas exportações de veículos, que devem reduzir-se em cerca de 8%. Esse aumento é conseqüência do crescimento das importações, com a queda na cotação do dólar, que favorece a aquisição de bens de capital, e pela própria expansão econômica do País. No ano passado esses volumes somaram apenas em Santos 265 mil toneladas. Este ano se espera que cheguem a 440 mil toneladas.É necessário que os portos, em geral - e Santos, principalmente -, destinem mais espaço para os navios ro-ro, que também transportam contêineres, mas são os responsáveis pelas cargas de projeto e pelos equipamentos que movimentam as fábricas. Só para comparar, o Porto de Buenos Aires tem quatro berços especializados para receber navios ro-ro, os Portos do Rio de Janeiro e de Vitória têm dois terminais. Santos não pode continuar dependendo, quase que unicamente, de um único berço especializado para os navios que não transportam apenas contêineres, sob prejuízo de ver montadoras e industriais serem obrigados a procurar pontos de embarque fora de São Paulo, com o aumento nos custos logísticos e redução na economia do Estado. A estrutura do Porto de Santos para atendimento aos navios ro-ro será insuficiente dentro de três anos. A partir de 2011, o complexo terá de oferecer três berços dedicados totalmente a essas embarcações.*Helder Malaguera é presidente da Grimaldi Lines Carlos Alberto Sardenberg excepcionalmente não escreve seu artigo hoje
O Globo

Cresce interesse por hidrovias
BRASÍLIA. Enquanto os investimentos dos portos estão travados, aumenta o interesse da iniciativa privada na utilização das hidrovias, o sistema de transporte mais barato que existe. A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) quer aproveitar este momento e prometeu, até a virada do ano, entregar o Plano Nacional de Outorgas em Hidrovias. Segundo o presidente da agência, Fernando Fialho, dificilmente haverá avanços na concessão de todo o transporte em um rio. Mas a iniciativa privada poderá participar de algumas fases do projeto, como administração de portos fluviais e gerenciamento de armazéns. - Cada vez mais as empresas querem utilizar hidrovias. (H.G.B.)
O Globo

Filipinas: navio vira e deixa 800 desaparecidos
Naufrágio ocorreu em meio à passagem pela região do tufão Fengshen, que já fez outros 155 mortos no país
MANILA. Mais de 800 pessoas estão desaparecidas desde sábado à tarde depois que um navio de passageiros filipino naufragou com a passagem do tufão Fengshen. O fenômeno, que atingiu as Filipinas no fim de semana, também causou enchentes, deixando 155 mortos em terra, além de 72 desaparecidos e um rastro de destruição no arquipélago. O navio "MV Princess of Stars", com 845 pessoas a bordo, entre elas cerca de 40 crianças, pediu socorro no sábado. Mas equipes de resgate só conseguiram chegar ao local do acidente cerca de 24 horas depois, devido aos fortes ventos, chuvas torrenciais e mar agitado, causados pelo tufão. Somente seis corpos foram encontrados, além de chinelos de crianças e coletes salva-vidas. Manila fica parcialmente submersa O navio havia partido na sexta-feira de Manila rumo a Cebu, mas começou a enfrentar problemas perto da ilha de Sibuyan. Ao todo, eram 724 passageiros e 121 tripulantes. A presidente das Filipinas, Gloria Arroyo, cobrou explicações das autoridades. - Como permitiram que ele partisse? Por que não houve um amplo alerta (de tufão)? - perguntou à Defesa Civil e à Guarda Costeira. Até ontem, apenas 28 sobreviventes haviam sido encontrados. Alguns deles conseguiram nadar até uma praia de Sibuyan, a três quilômetros do local do naufrágio, e foram encontrados por moradores. Segundo os sobreviventes, muitos não conseguiram abandonar o navio. - Muitos de nós saltaram do barco, mas fomos separados pelas fortes ondas - contou o sobrevivente Jesus Gica. - Outras conseguiram embarcar nos botes salva-vidas, mas foi inútil, pois os ventos viraram as embarcações. Jessie Buot, outro sobrevivente, afirmou que a tripulação fez um alerta com megafone cerca de trinta minutos antes de o barco adernar. - Logo em seguida, eu pulei e o barco virou. As pessoas mais velhas ficaram no barco. O mau tempo forçou a suspensão da operação de resgate, mas duas embarcações deveriam reforçar os trabalhos a serem retomados hoje. Se as mortes dos desaparecidos forem confirmadas, este será o maior acidente marítimo do país desde 1987, quando 4.400 morreram com a colisão de um navio filipino com um petroleiro. O Papa Bento XVI emitiu uma nota dizendo que estava rezando pelas vítimas. Com ventos constantes de 120 km/h e picos de 195 km/h, o tufão Fengshen mudou de trajetória na madrugada de sábado para domingo e se aproximou da capital Manila, onde já havia arrancado árvores e deixado várias partes da cidade alagadas e sem energia. O tufão também obrigou 200 mil pessoas da região de Bicol, sudoeste da ilha de Luzon, a deixarem suas casas, embora muitas tenham retornado poucas horas depois de a tempestade mudar de trajetória. Apenas na província de Iloilo, o Fengshen - o tufão mais forte da temporada e cujo nome local é Frank - deixou 101 mortos e comunidades inteiras submersas. Dezenas de milhares de pessoas permanecem isoladas nos telhados de suas casas. - Iloilo parece um oceano. Este é o pior desastre de nossa história - declarou o governador Neil Tupaz à rádio local. Na vizinha Capiz, mais de duas mil casas foram destruídas na capital da província, e as autoridades lutam para estabelecer contato com comunidades mais distantes. Em 2006, quatro tempestades de forte intensidade deixaram mais de 1.300 mortos, quase três milhões de atingidos e meio milhão de casas destruídas.
O Globo

Medo altera a rotina no Leme
Flavia Lima
A iminência de um ataque neste fim de semana alterou a rotina dos moradores do Leme. Eles evitam sair à noite e agora tomam certas precauções, como ligar para bares e restaurantes para saber se há tiroteio nos morros Chapéu Mangueira e Babilônia. Alguns, cansados dos confrontos, chegaram a tomar uma decisão radical: mudaram-se para outro estado. É o caso de Beatriz Rinaldi, ex-moradora do Leme. Morando em Curitiba, no Paraná, ela lamentou a onda de medo que o bairro vive hoje. - Morei mais de 30 anos no Leme. Saí do Rio por causa da violência. Mas jamais imaginei que o bairro chegasse a esse ponto. O Chapéu Mangueira era a favela mais pacata da cidade, enquanto havia tropas no Forte, que zelavam pela segurança no morro - disse. Por causa da violência, moradores do asfalto mudaram seus hábitos. Um professor universitário, que não quis se identificar, contou que deixou de freqüentar o Leme Tênis Clube à noite. - Antes ficava até quase meia-noite no clube. Agora não fico mais. Quando sentimos um clima diferente, ou então quando ouvimos algum boato de tiroteio, nem saímos de casa - revelou o professor, que mora no bairro há 20 anos. Ele admite que nunca presenciou situação parecida como a de hoje. - Antes, tinha tiroteio uma vez por ano. Hoje, todos os dias ouço disparos - completa.
Revista IstoÉ

Floresta zero?
Mangabeira admite flexibilizar limites ao desmatamento
Hugo Marques
Uma das grandes bandeiras do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) é a ampliação no limite atual do desmatamento da Floresta Amazônica, de 20% para 50%. Ele é autor de um projeto de lei nesse sentido, que tramita na Câmara dos Deputados - projeto que já foi apelidado de "Floresta Zero". Nesta semana, o senador ganhou um parceiro de peso: o ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, que assumiu a coordenação do Programa Amazônia Sustentável (PAS). Numa reunião com colegas de governo, na terça- feira 17, Mangabeira admitiu a flexibilização do limite legal do desmatamento: "Não há nenhum assunto tabu", assegurou o ministro. Ele deu a entender que, antes mesmo da possível aprovação do "Floresta Zero", poderia haver mudanças nos limites atuais através do chamado zoneamento ecológico-econômico. Trata-se de autorizações dadas pelos Estados para que o limite de desmatamento supere os 20% permitidos pela lei federal. Isso já acontece no Acre e em Rondônia. Procurado por ISTOÉ, Mangabeira não quis comentar o assunto.A declaração do ministro acendeu uma luz amarela entre os ambientalistas e dentro do próprio governo. O diretor internacional do Greenpeace na Amazônia, Paulo Adário, acha que Mangabeira faz o jogo dos madeireiros e fazendeiros que ocupam a floresta de forma ilegal. "Existe um movimento orquestrado de mudança do Código Florestal para permitir a expansão do agronegócio na Amazônia", diz Adário. "O Mangabeira é um ministro do futuro com estratégia do passado, que adota a lógica do avanço da colonização da Amazônia na pata do boi, a mesma visão dos militares na década de 70." O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, lembra que conversou com o presidente Lula e informou que iria à Câmara e ao Senado procurar os líderes para derrubar qualquer medida que flexibilize o limite legal de desmatamento. "É uma posição que não é do Ministério do Meio Ambiente, é do presidente Lula e do governo, e é contrária à redução da reserva legal", disse Minc na quinta-feira 19, através de e-mail encaminhado pela sua assessoria.Mangabeira Unger também dá sinais de que defende um tratamento diferenciado na região amazônica. "O Plano Amazônico Sustentável tem a ver com a Amazônia Legal, que é muito mais do que floresta, é 59% do Brasil, e inclui vastas áreas de cerrado ou savana tropical, que nunca foram floresta, inclusive todo o Estado de Mato Grosso, hoje um dos maiores celeiros do mundo", diz. Ele afirma que a maioria da população não quer entregar a Amazônia aos predadores, mas se dá o direito de interpretar o que o povo pensa a respeito da expansão sobre a floresta: "A grande maioria dos brasileiros não aceita a idéia da Amazônia como parque e sabe que este parque não se sustenta".
Revista IstoÉ

BRASIL CONFIDENCIAL
Brasília al mare
No final da década de 50, a argentina Mercedes Urquiza, que se tornou uma das pioneiras de Brasília, ciceroneou uma equipe da National Geographic que registrou a construção da nova capital. Mais tarde, Mercedes recebeu as fotos originais. Agora, elas farão parte de uma exposição que correrá o mundo a bordo do navio Brasil, da Marinha. Serão exibidas nos portos, ao lado de fotos atuais de Ruy Faquini. A exposição começa por Xangai no mês que vem.

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